História da Casa

CEU II – 40 Anos de Luta e Resistência*

A UFSM é reconhecida por possuir um dos melhores programas de Assistência Estudantil do país. E não é à toa: são 40 anos de luta!

Criada em 1968, a CEU II surge da necessidade dos estudantes de baixa renda provenientes de toda a região em manter-se estudando. Inicialmente, resumia-se ao Bloco 11. Porém a crescente demanda por moradia estudantil evidenciava a necessidade de ampliação das vagas disponíveis para um contingente cada vez maior de jovens, o que aliado a presença das estruturas dos “escombros” inacabados pela velha “falta” de verbas, desde o inicio fez com que estes questionassem os “por quês” de tão poucas vagas.

Aliás, esta mesma falta de recursos (e de prioridade) também era responsável por cobranças de mensalidades na Casa! Mas felizmente, devido a persistência dos moradores, conquistou-se o direito a moradia estudantil gratuita.

Acirradas discussões precederam a conquista da moradia feminina na CEU II. Até fins da década de 70, só rapazes podiam morar aqui. Mas a partir do momento em que quatro gurias que não tinham onde morar para estudar na UFSM superaram o preconceito vigente e resolveram ocupar um quarto no Bloco 12, de lá não saindo mais, acende-se uma polêmica na Casa: houve resistência por parte da reitoria e alguns moradores, mas a maioria questionava “por que só os machos precisam de assistência?”.

Assim, graças a estas 4 pioneiras, de lá pra cá as mulheres tem permanência garantida na CEU II. Você já imaginou a Casa sem elas? Agora imagine a peleja que envolveu o direito à moradia mista…

Mas, brabo mesmo era no tempo da Ditadura. Tinha um escritório do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, que era o órgão da Ditadura responsável pelas perseguições políticas, torturas, etc.) na Reitoria. E pra piorar a Diretoria da CEU tinha naquela época uma relação muito “amistosa” com a Reitoria, denunciava estudantes que pensavam e agiam diferente daquilo que estava estabelecido, e o DCE, chegou ao cúmulo de em 1969 (quando estudantes do Brasil inteiro se mobilizavam contra a Ditadura e a UNE lutava pra se organizar na clandestinidade) homenagear o então presidente Gal. Castelo Branco como sócio emérito do DCE. Foi a única organização estudantil a homenagear e receber um representante da Ditadura. Mas voltando à Diretoria da Casa, esta em nome de sua “amizade” com a Reitoria foi até contra a entrada de mulheres na Casa. Bem, mas em meados da década de 70 os moradores se organizam, mudam a linha política da Diretoria da Casa, encabeçam o Movimento Resistência, que culminou com as eleições diretas para o DCE (antes disso, o DCE era “eleito” pelo Reitor e seus Pró-Reitores), e participam ativamente da reorganização da UNE em 1979.

A partir da década de 80 avança-se na luta pela ampliação da Casa, que na época era constituída apenas pelos Blocos 11 ao 14. Em 1983, sob o mote “Moradia não se adia! Ocupação é a solução”, os pretendentes a vagas na Casa, já cansados de esperar, se organizam e ocupam o Bloco 15 por um semestre inteiro, com grande visibilidade na mídia local, forçando a reitoria a iniciar a sua conclusão.

Já em 87, com a ocupação do Bloco 25, houve maior tensão e o pau comeu! De forma autoritária o Reitor autorizou a Brigada a entrar lá e baixar o sarrafo na gurizada, sendo que alguns estudantes tiveram prisão decretada. Mas deu resultado: os estudantes foram libertados e o 25 concluído.

Como a cada inicio de semestre chegavam cada vez mais estudantes para morar na Casa, o pessoal tinha que se virar do jeito que desse, se amontoando nas salinhas dos blocos ou no apartamento de algum conhecido até conseguir a carência e uma vaga na CEU. Porém, em 1989 a situação passou dos limites: eram mais de 100 estudantes necessitando moradia! A solução encontrada não foi a de ocupar provisoriamente outro bloco de escombros, mas sim organizar uma ocupação permanente na União Universitária, que de um mero espaço recreativo para os mais abonados da universidade, passa a ser o principal meio de pressão para a conclusão da CEU II, um alojamento provisório, onde coletivamente a galera resistiu a até hoje resiste, contrapondo as investidas da reitoria para acabar com este espaço.

A partir da ocupação da União é que o famoso “pombal” não parou mais de crescer.

Na década de 90, sob a gestão do Reitor Odilon do Canto, após algumas mobilizações, reuniões e cobranças, consegue-se o término dos Blocos 24, 23, 22 e 21. O seu sucessor, o Reitor Paulo Jorge Sarkis, “eleito” por duas vezes, apesar de ter prometido em campanha terminar todos os blocos, foi apenas ante a pressão constante dos moradores da Casa e da União que se conquistou o término dos Blocos 40 e dos 31 e 32.

E as greves. Pra gente não se alongar muito, vamos falar só das últimas. A de 2000 foi feia, aqui na UFSM os funcionários estavam em greve e os professores não. As bibliotecas, o RU, os laboratórios e tudo mais tava parado, e mesmo assim o tínhamos aula, mesmo sem ter as mínimas condições. Aí numa assembléia da Casa, resolvemos parar a Universidade. Ficamos três dias acampados na frente do Arco com mais de 1000 pessoas. Deu resultado, os professores entraram na greve e o governo federal cedeu. Mas as nossas maiores conquistas foram com a greve de 2001, quando estudantes, funcionários e professores aderiram à greve. Conseguimos uma rubrica de R$ 5 milhões para a Assistência Estudantil, que desde 1997 não recebia nenhum centavo do governo federal. Na greve de 2005, tivemos uma situação parecida com a de 2000 e vários estudantes deixaram de comparecer as aulas pela falta de condições (que depois foram repostas para eles).

Na década atual não foram poucas as batalhas encampadas e os avanços e melhorias obtidos.

Com a campanha Reajuste Já! em 2003, a Diretoria da CEU II e vários DAs conquistaram o aumento das bolsas da universidade (defasadas em mais de 77%), de R$ 75,00 para R$ 90,00.

Até 2005 os pós-graduandos ainda não tinham o direito a carência e R.U. (será que precisavam de menos calorias?). Neste ano, eles se organizam, promovem o Seminário de Assistência Estudantil e conquistam o direito a carência, tendo acesso ao R.U. e a CEU III, apesar do pequeno número de vagas disponíveis.

Ainda em 2005 ocorreram as eleições da Reitoria, desta vez com proporcionalidade Paritária (30/30/30) entre as categorias (estudantes, professores e servidores), devido a uma articulação do DCE com as entidades sindicais da UFSM, superando o nada democrático modelo 70/30 vigente até então (onde o voto do professor equivale a 70% do total, enquanto estudantes e funcionários, que são ampla maioria, dividem os 30% restantes). Assim é eleito Clóvis Lima que também nos prometeu várias melhorias. E cobrá-lo é nosso dever.

Em 2006 tivemos o término do Bloco 33 e a maquiada externa dos Blocos 11 ao 15, que agora até parecem novos, mas é só por fora mesmo..

E foi visando cobrar as promessas do senhor Reitor que em 2006 e 2007, o Movimento Estudantil da UFSM construiu a Campanha pela Assistência Estudantil, onde apresentamos nossas reivindicações à reitoria e culminando com a Ocupação da Reitoria (de 30/5 a 1/6), onde conquistamos o Reajuste das Bolsas de R$ 90,00 para R$ 130,00 que estavam defasadas em mais de 100% (e a garantia do seu reajuste anual, proporcional ao orçamento da UFSM), o término dos Blocos 34 e 35 até fim de 2008 (vencendo o mito de que estes estavam condenados e não poderiam ser concluídos), a ampliação horizontal do R.U. e sua abertura até as 13:30hs, a redução do preço do xérox na UFSM com o fim do monopólio da Sul Cópias e impediu-se a venda do Prédio de Apoio.

Além disto, também conseguiu-se a reabertura do gabinete odontológico da União para os moradores da Casa (após 8 anos de pressão!), a reforma dos banheiros dos blocos 14 e 25, e a abertura de mais 2 laboratórios de informática na CEU. Vitórias muito importantes no contexto em que vivemos. Sua efetivação dependerá de nossa organização e força para cobrá-las e mantê-las.

E hoje, 2008, ano em que a Casa que fazemos parte completa 40 anos de existência, mais do que celebrar este momento, devemos refletir sobre seu significado e nos sentir parte deste processo. Ver que o que temos hoje não veio de “mão-beijada”, mas sim, é fruto de muita organização e empenho coletivo na pressão pelo nosso direito de estudar.

A CEU II é parte viva da UFSM e sua história. E a exemplo daqueles que aqui já viveram, garantir a sua existência e autonomia depende de todos nós. Não nos isolemos em nossos quartos! Ainda temos muitas demandas. Faça com que a luta pela moradia estudantil, pela educação pública e por uma sociedade mais justa não pare.

CEU 2 – Sempre Pública e Gratuita!

Texto escrito em 2008, na comemoração dos 40 anos da Casa.

3 ideias sobre “História da Casa

  1. Parabéns pelo resgate de tão belo capítulo de nossa história.
    Participamos, como estudante e diregente… Vice-presidente da casa em 1978. Enfrentamos os resquícios da ditadura, sempre de cabeça erguida.
    Tenho um texto escrito sobre esse período, como posso enviá-lo.

  2. Estimad@s!
    Satisfação em ler, aqui, registro da história da luta por moradia estudantil na UFSM. Tive a satisfação de participar do movimento como membro da diretoria da CEU II, durante um tempo de muitas lutas, entre 1988 e 90. Sem dúvida, um aprendizado (de luta e cidadania) para vida toda. Vida longa à moradia estudantil. UFSM e CEU, sempre públicas! Valeu!

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