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Sítio paleontológico nos fundos de casa

A região central do Rio Grande do Sul possui grandes parques e sítios paleontológicos. Não é por acaso que foi criada a Paleorrota, ou Rota Paleontológica, que se estende por uma área pertencente a quinze municípios gaúchos. A localização desses sítios, porém, não é própria das Universidades, e são encontrados quando os pesquisadores vão a campo em busca de locais onde o subsolo esteja aflorado. Nesse processo, é comum o contato com agricultores e proprietários de terras, que fazem uso do solo para a produção de gado, de hortifrutigranjeiros e de cereais.

Como se dá a relação entre os cientistas e os proprietários? O que os pesquisadores podem fazer nas terras alheias? Para esclarecer essas dúvidas, o Infocampus conversou com o paleontólogo Átila Stock da Rosa, doutor em Geologia pela UNISINOS e professor do Departamento de Geociências e integrante do Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia da UFSM.

Infocampus: As terras onde se realizam escavações em busca de fósseis são de propriedade de agricultores da região. Como se dá essa relação com os proprietários?

Professor Átila Stock da Rosa: Tudo que está no subsolo – uma rocha, um minério, um fóssil – é da União. As pessoas acreditam que, como se encontram dentro de sua propriedade, e categorizadas junto com esses outros itens, o fóssil tem valor. Um fóssil é um bem da União. Algumas pessoas têm permissão para fazer essa coleta. Para um arqueólogo, é preciso fazer uma solicitação no Instituto de Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional (IPHAN), e recebe uma portaria, publicada no Diário Oficial da União, para fazer coleta, escavação ou estudo. Na paleontologia, isso ainda é um projeto de lei, e se encaminha para as mesmas exigências. De qualquer forma, existe um proprietário, que faz uso do solo e da parte externa. Claro que esse solo está sobre o subsolo. Quando alguém vai fazer um açude na sua propriedade, ele tem que ter permissão em um órgão ambiental para fazer uma escavação do pedaço de um morro para fazer a taipa do açude. Nesse momento é importante que exista uma relação amigável entre o arqueólogo e um paleontólogo com o proprietário, porque nesse momento é que podem aparecer fósseis. No momento em que é retirado o solo, o paleontólogo pode fazer um acompanhamento contínuo sobre as áreas. Aos poucos, essas rochas sofrem com intempérie do tempo, e o arenito vira areia, a rocha mais fina vira lama, que é onde estão os fósseis. Essas terras, para o agricultor, são péssimas. É um solo muito pobre, rico em sílica e muito baixo em nutrientes. Em termos de agricultura, não é produtivo.

“Muitos agricultores questionam se estamos procurando ouro ou se vamos embargar a obra. Nada disso acontece. A anuência e a conscientização do proprietário são importantes”, afirma Átila. Créditos: Eduardo Covalesky.

I: Existe uma relação direta entre os agricultores e os proprietários das terras com os pesquisadores?

A. S. R.: Cada vez que a gente vai a campo, mesmo que já seja um sítio conhecido, se pede permissão para entrar. Existe esse tipo de acordo, um acordo de cavalheiros, sinal de boa educação. Quando a gente vai a campo, fazemos uma prospecção de novos sítios. Procuramos um lugar onde a rocha esteja aparecendo. Às vezes, olhamos de longe um morro e pensamos que talvez seja um local importante de chegar. Vamos até um lugar mais perto, perguntando de quem é a propriedade. Vamos sempre pedindo permissão. Essa é a relação que existe entre paleontólogos e agricultores da região.

I: Já foi feito um levantamento de quantos sítios são em áreas particulares?

A. S. R.: Eu fiz um levantamento, em 2000, dos sítios paleontológicos de Santa Maria. Aqui, metade dos sítios são em áreas protegidas legalmente. As faixas de domínio das estradas são exemplos de áreas protegidas.

I: O que é necessário para entrar nessas propriedades?

A. S. R.: Para entrar numa propriedade, tem que ter uma permissão do proprietário. Tem que ter uma conversa para esclarecer a existência de um barranco, por exemplo, e que nós, pesquisadores, gostaríamos de visitar para saber se tem fósseis. A anuência do proprietário vem em primeiro lugar, sempre. E a conscientização dele também é importante. Muitos questionam “estão procurando ouro?”, mas não há nenhum interesse nesse sentido. O interesse é único em saber se tem fósseis e protegê-los. Outros questionam se estamos indo lá para embargar a obra. Existem várias pessoas que tem medo que isso possa acontecer. Isso não acontece.

Fóssil do crânio de um dicinodonte, animal que viveu no Triássico Superior, há cerca de 225 milhões de anos. Créditos: Eduardo Covalesky.

I: A procura por fósseis só é feita em locais que já tiveram afloramento do subsolo?

A. S. R.: Em locais que já esteja aflorado ou em locais que serão aflorados em virtude de alguma obra. Se existe uma área na Quarta Colônia que serve para produção de arroz, já sabemos que é um solo que está sob um sedimento aluvial do rio Soturno ou rio Jacuí, bastante lamoso e que não tem fóssil. Naquela região, pode-se encontrar fósseis numa meia-encosta, em um solo mais fino, pouco profundo. Se é num lugar que precisa escavar muito, não procuramos.

Geralmente já procuramos lugares em que já tenha rocha exposta. Se for um lugar que vai ter uma escavação, como construir um “puxadinho” na própria casa, o solo movido pode conter fósseis. Depende do tipo de rocha também. Num solo basáltico, é difícil encontrar fósseis, porque é um solo íngreme, de origem vulcânica. Da mesma forma, nem toda rocha sedimentar terá fósseis. Essas rochas são o retrato do que era o ambiente no passado. Imagine que tinha um rio e uma planície de inundação. Os animais viviam na várzea e de vez em quando iam para a margem tomar água. Viviam em grandes manadas, mas não morriam todos ao mesmo tempo. Um morria e o corpo ficava exposto, como a carcaça de vacas que vemos hoje em dia. Nesse caso, o esqueleto se destruía. Em outro caso, um animal morre e sofre a inundação do rio, sendo soterrado. Então, daquela grande manada, se conseguiu proteger um só animal. E o esqueleto só será preservado se existirem sedimentos que entram nessa estrutura óssea. Aí sim, vira fóssil.

Na ilustração, um arcossauro (como o do fóssil recém encontrado) ataca um dicinodonte e o protege de outros predadores dinossauros. Segundo Átila, nunca houve comprovação de que esse convívio tenha acontecido. Reprodução: Eduardo Covalesky.

I: Nesse caso do dinossauro descoberto pela Ulbra recentemente, o fóssil aflorou no solo. Como se deu esse processo?

A. S. R.: O que temos na região são rochas dos períodos Triássicos Médio e Superior. Em Dona Francisca, são do primeiro, já em São João do Polêsine e em Santa Maria, são do segundo período. Como o Triássico Médio é mais antigo, nelas aparecem os ancestrais dos dinossauros, que foi o caso do fóssil descoberto pela Ulbra. No Superior, já aparecem dinossauros mais recentes e alguns outros arcossauros também, que conseguiram sobreviver durante um tempo. Tem alguns animais que sobreviveram todo esse período, mas outros surgiram naquele período e foram extintos. Na verdade, o período é determinado pelo surgimento e pela extinção de determinados organismos. Sabemos a idade relativa dos fósseis baseado nas faunas. Tem um grupo de herbívoros, que conviviam com os arcossauros, que são chamados de dicinodontes. São característicos do Triássico Médio. Já no Triássico Superior, a gente não encontra nenhum deles, apenas outros herbívoros que são mais especializados, chamados de rincossauros. Para exemplificar, nesse desenho que o pintor fez (ver ilustração), ele desenhou um grande arcossauro, um tecodonte como o encontrado pela Ulbra, predando um dicinodonte e protegendo a sua caça de outros animais que seriam dinossauros. Ele imaginou, com isso, que já existissem dinossauros no Triássico Médio. A gente nunca encontrou isso.

A maquete do CAPPA, que está sendo construído em São João do Polêsine: o Centro abrigará um museu, uma biblioteca, um auditório, laboratórios de preparação e restaurante para pesquisadores e alunos. Ilustração: Arquitetura ARQ Conjunta.

I: Em São João do Polêsine está em andamento a construção de um Centro de Apoio à Pesquisa, que teve sua primeira parte da obra concluída em 2009. Como está a construção e qual o objetivo do projeto?

A. S. R.: Existe na Quarta Colônia um projeto chamado ‘Parque Paleontológico Integrado da Quarta Colônia’, e está sendo construída em São João do Polêsine uma espécie de um museu, que na verdade é o Centro de Apoio em Pesquisa Paleontológica (CAPPA). Lá, vai ter um museu, uma biblioteca, um auditório, laboratório de preparação, ou seja, não vai ser só uma área de exposição, mas um lugar de pesquisa. A ideia é que a gente tenha lá paleontólogos e técnicos fazendo um monitoramento contínuo dos parques paleontológicos da região, durante toda semana, vendo se existem novas áreas que apareceram fósseis para coletá-los e tombá-los no próprio CAPPA. Terminada essa obra, também existem áreas para construção em alguns sítios importantes na Quarta Colônia. Ali em Faxinal do Soturno vai ser construída uma unidade museológica. Em cima de um sítio, vai ser construído um espaço onde tem algumas aplicações sobre os fósseis, passarelas com as quais as pessoas podem chegar mais perto possível do sítio fossilífero, sem entrar em contato direto, para preservá-lo para a pesquisa. Essas unidades museológicas serão construídas em Faxinal do Soturno, Agudo e Dona Francisca, mais o CAPPA, em São João do Polêsine, vão compor o Parque Paleontológico Integrado da Quarta Colônia.

Acadêmico: Eduardo Covalesky – educovalesky@gmail.com
Professora responsável: Luciana Mielniczuk – luciana.mielniczuk@gmail.com
3/5/2010

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