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Os Lanceiros Negros, bravura e lembrança farroupilha

“Quem foram os negros,
que o grito da terra,
qual chama divina
bradou pelo chão,
deixando o arado,
caído esquecido,
partiram levando
a lança na mão?”
(Altamira Bataglia Medina)

Março de 1845. O Tratado de Poncho Verde é assinado, e finalmente é selada a paz no Rio Grande sul. Após dez anos de intensas batalhas e atos extraordinários de bravura, a revolução Farroupilha chegara ao fim, deixando vestígios que até hoje permeiam a sociedade gaúcha, em seus estudos, comportamentos, ideologias. Entretanto, dentre os muitos fragmentos deixados, existe uma cicatriz que envolve o povo rio-grandense. A chamada Batalha de Porongos, que supostamente teria sido um massacre contra a tropa de lanceiros negros, marca uma série de referências daquilo que ainda é obscuro na revolução. Na trilha de um maior esclarecimento sobre esses fatos, caminha o projeto de pesquisa “Os lanceiros negros e a revolução farroupilha: falas e silêncios da historiografia”, desenvolvido pela acadêmica do curso de história Letícia Rosa Marques, sob orientação da professora doutora Maria Medianeira Padoin.

A Guerra dos Farrapos é ainda bastante glorificada nos dias de hoje. Em qualquer região do estado, quando alguém falar em bravura ou em luta por ideais, a batalha farroupilha será mencionada. O modo como parte das lideranças do Rio Grande do Sul não aceitou as imposições do governo central, e buscou de alguma forma impedi-las, transformou-se em traço histórico do gaúcho. Grandes nomes como os de Bento Gonçalves, Antônio de Sousa Neto e Giuseppe Garibaldi, são lembrados entre os heróis farrapos. Nomes que suscitam imperecíveis líderes naqueles dez anos de guerra. E na conclusão das batalhas, quando a paz é selada, outros heróis surgem. Supostos heróis. Pois, para ser assinada a paz entre o governo do país (império) e o gaúcho (republicano), foi necessária a morte dos negros que lutavam pela causa farroupilha e pela própria liberdade.

Letícia Rosa Marques é acadêmica do curso de história, na UFSM. Nascida em Caçapava do sul, foi criada em meio a uma cultura tradicionalista forte. Uma cidade de amplo folclore gauchesco cultivado por negros, tanto por acolher o primeiro CTG fundado por eles no estado. Anos depois, ao ter contato com o mundo acadêmico e seus estudos sobre a revolução farroupilha, percebeu uma ampla lacuna. Encontrava uma quantidade ínfima de personalidades negras nos arquivos farrapos. Um fato que lhe causou estranheza, já que vivenciou tanto dessa presença na sua infância. E nesse ponto se descobre uma das maiores tragédias da história farrapa.

Na negociação da paz na revolução, os farroupilhas incluiram uma cláusula que concedia a liberdade a todos os negros que lutaram na revolução.  O impasse estava criado e parecia um obstáculo intransponível na resolução da paz. A saída encontrada foi a mais cruel possível:  o coronel Teixeira Nunes e seu corpo de Lanceiros Negros descansavam no acampamento da curva do arroio Porongos. Foi então que apareceu o coronel monarquista Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, de surpresa e quebrando o decreto de suspensão de armas. O exército de negros foi dizimado.  A assinatura do tratado de paz foi garantida.

Esse episódio é apenas o mais famoso dos tantos que marcaram a Revolução Farroupilha, ocultando a enorme presença afro-descendente nas conquistas da guerra. Na pesquisa de Letícia, aos poucos se desvenda o que segue perdido na linha histórica. Textos e personagens reais foram queimados e ocultados para que jamais se revelassem as atrocidades praticadas. Algumas poucas informações, retratos, relíquias de família preservadas com cuidado que comprovam os acontecimentos, reside na própria cidade de Letícia. Em sua maioria, são fragmentos notórios, documentos, antigos retratos, objetos conservados desde o fim das batalhas. Pequenas heranças da era farrapa que são valiosas não só para as famílias que as guardam como também para os historiadores, que aos poucos remontam o cenário da revolução. Fontes capazes de confirmar a presença negra entre as lideranças da revolução.

O projeto de pesquisa de Letícia, porém, não se deteve apenas a Caçapava do Sul, muito menos ao Rio Grande do Sul. A Guerra dos Farrapos se estendeu além das fronteiras do estado. Pelo Brasil, pela América do Sul e pelo mundo, ainda estão ocultas revelações que podem trazer verdades da revolução. Isso é possível, não apenas pelas batalhas terem avançado além do território gaúcho, mas também por compreenderem uma quantidade infindável de estrangeiros solidários pela causa gaudéria. Um exemplo desses é o cientista italiano Tito Livio Zambeccari. Tornou-se amigo e assessor daqueles que viriam a ser os líderes da Revolução Farroupilha, influenciando diversos manifestos assinados na época e durante a revolução.

Retrato de Tito Livio Zambeccari. Ao fundo, se encontra um Lanceiro Negro - Século XIX. Créditos: Bolletin Museo del Resorgimento di Bologna, Itália.

A Guerra dos Farrapos foi uma das maiores insurreições do país. O projeto acadêmico de Letícia Rosa Marques visa esclarecer os pontos obscuros da história da revolução e suas revelações devem complementar e enriquecer ainda mais a cultura gaúcha.

Repórteres:
Luiz Valério Peixoto Seles Filho – valério.seles@hotmail.com
Yuri Medeiros de Lima – yuri__lima@hotmail.com
Olívia Scarpari Bresssann - oliviascarpari@yahoo.com.br

Professor responsável:
Rondon de Castro – rondon@smail.ufsm.br

3º semestre
21/6/2010

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