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Os riscos e benefícios das usinas de energia nuclear

Atualmente, existem 442 reatores nucleares em operação no mundo. Outras 65 plantas estão sendo construídas, principalmente no Leste Europeu e na China. O Brasil possui três usinas desse tipo situadas na praia de Angra dos Reis, no Rio Janeiro. O recente acontecimento envolvendo a usina de energia nuclear de Fukushima, no Japão, trouxe à tona reflexões a respeito dessa tecnologia.

Segundo o professor do Departamento de Física da UFSM, Luiz Alexandre Schuch, que se aposentou em fevereiro deste ano, as usinas de energia nuclear são importantes para o desenvolvimento de alguns países e essenciais para outros. Os riscos existem, mas para ele, a escolha deve ser feita pela população, devidamente informada, de cada país.

Para o professor Luiz Alexandre Schuch, toda a atividade humana envolve riscos e benefícios. Créditos: Dairan Paul.

Infocampus – Após o acidente ocorrido na usina de Fukushima, no Japão, o mundo continuará utilizando energia nuclear?

L. A. I - Qualquer ramo da atividade humana envolve riscos e benefícios. Você tem então que ponderar. Por exemplo, a energia nuclear não é só utilizada em reatores, ela é também utilizada na medicina, na agricultura, na indústria. As radiografias também a utilizam. É tudo baseado no efeito que a radiação pode fazer. Você tem que ponderar. Na França por exemplo, 75% da energia utilizada é nuclear. A França não tem rios para produzir energia. O conforto de um país desenvolvido é baseado na energia elétrica. O Japão também não tem rios o suficiente para produzir centrais, e nem tem espaço.

Podemos analisar a hidrelétrica de Itaipu, que produz 12000 MW de potência. Itaipu está construída em um lago de 1600km² de área, em torno de rios, onde existem terras férteis que poderiam produzir alimentos. Não são todos os países que dispõem dessas condições para produzir energia. Angra 1, 2 e 3, estão localizadas numa pequena praia no Rio de Janeiro, ou seja, você constrói uma central hidrelétrica dentro da cidade, se for preciso. Devem ser ponderados os riscos e a necessidade de desenvolvimento do país. A população dever ser esclarecida desses riscos e benefícios e ter a capacidade de optar.

Infocampus – Qual é o grau de dependência, principalmente de países pequenos, em relação a energia nuclear?

L. A. I - Tem países que precisam da energia nuclear, lugares onde não há como terminar com esse tipo de usina. O problema é que quando ocorrem esses acidentes, como também ocorreu em Chernobyl (na Ucrânia, em 1986), acontece um arrefecimento na tendência mundial de se expandir o uso de energia nuclear. Mas devemos perceber que estamos poluindo o meio ambiente com outras formas de geração de energia. A queima de carvão causa chuva ácida, por exemplo. As coisas precisam ser comparadas. A energia nuclear é muito cara, justamente por causa da necessidade de segurança. Isso faz com que os preços fiquem cada vez maiores.

Também ocorre que muitas dessas centrais nucleares já são bem antigas, já estão operando há mais de 20, 30 anos. Cada vez que se faz uma central nuclear nova,  novas tecnologias são aplicadas. Como automóveis ou trens, que foram evoluindo com o passar do tempo, principalmente em relação à segurança. Não tem retorno. O que vai ocorrer com a energia nuclear, como por exemplo na Alemanha, onde o Partido Verde é muito forte e é feita uma pressão muito grande, a opinião pública vai começar a debater essa questão. Mas depois passa. O povo pensará: os outros países se desenvolvem com energia nuclear, o nosso não vai se desenvolver?

Infocampus – O risco de acidente envolvendo uma central nuclear é alto, ou está mais condicionado a eventos acidentais como o terremoto no Japão?

L. A. I - O que aconteceu no Japão, é uma coisa totalmente imprevisível. Foi um terremoto muito intenso, seguido de um tsunami que inundou os geradores diesel que serviam para refrigerar os reatores. Ocorreu então, um superaquecimento, já que o geradores diesel deixaram de funcionar. É uma coisa que poderia ser prevista. Um país que tem muito terremoto, tem que ter processos de segurança melhorados. Os geradores diesel, por exemplo, poderiam ter sido construídos numa região mais alta.

Se for analisar, o número de pessoas que já morreram vítimas de acidentes nucleares é muito pequeno. Na época de Chernobyl, achava-se que o número de vítimas seria muito superior ao que se verificou. Claro que providências foram tomadas. Foi feito um sarcófago sobre a usina, e as cidades vizinhas foram evacuadas.

Existem riscos. Viajar de avião, por exemplo, pode ser arriscado. Mas você sabe que a probabilidade de ocorrer um acidente é pequena. Então você viaja de avião. Não pensa que o avião vai cair. E quando um avião cai, ocorre uma comoção nacional. Mas as pessoas não deixam de viajar de avião, porque os riscos são pequenos, estatisticamente. Também existem vantagens em relação a outros transportes, que por sua vez também podem oferecer riscos.

Infocampus – Quais são as vantagens da energia nuclear em relação às outras fontes de energia?

L. A. I - Não se pode falar em vantagens ou desvantagens. Depende do que você precisa. A energia nuclear é uma energia mais cara. Se você tem rios à vontade, bastante carvão, pode não ser vantajoso. Você precisa ver quais são as suas necessidades e o que você tem disponível. A construção de uma hidrelétrica é mais cara, mas a manutenção não. No caso de uma central nuclear, você tem que estar sempre produzindo o combustível nuclear, aumentando os custos de manutenção. Se for queimar carvão para produzir a mesma energia do que uma central nuclear, será um absurdo o que você terá que queimar de carvão. Novamente, é uma questão de decisão de cada país. Sem centrais nucleares, talvez o país tenha que refrear seu crescimento, o que pode diminuir o conforto do povo.

Infocampus – Um país como o Brasil, que possui recursos naturais, deverá continuar a usar energia nuclear?

L. A. I - Sem dúvida. O problema não é ter recursos hídricos, por exemplo. O problema é que o consumo de energia muda sazonalmente e diariamente. Em certas épocas que tenha menos chuvas, você não pode fazer um reservatório muito grande de água. Quando precisa de mais energia, então, o Brasil utiliza as termelétricas. As usinas nucleares brasileiras também são utilizadas nesses momentos.

Eu acho que todas as formas de energia devem ser desenvolvidas. Até porque muita energia é perdida com o transporte. Numa praia pequena como Angra, você pode produzir um terço ou mais da quantidade de energia produzida em Itaipu, onde você alagou uma área de 40km².

Infocampus – Qual a participação da energia nuclear na matriz energética brasileira?

L. A. I - Será algo em torno de 3%. O Brasil deve se envolver mais nessa área. Mesmo sendo apenas esses 3%, ela pode ser usada, e o Brasil pretende construir novos reatores. Claro que vão existir riscos.

Infocampus – As centrais nucleares brasileiras são seguras?

L. A. I - Você tem que analisar as probabilidades de um acidente acontecer. O pior que pode ocorrer, é a perda de refrigeração dos reatores, como aconteceu no Japão.  Angra 1, por exemplo, tem um contêiner de aço de uma polegada e meia em toda a volta da central, que tem mais de cem metros de altura e sessenta metros de diâmetro. Além disso, ela é revestida de concreto em toda a sua volta. Essas medidas de segurança existem porque há trânsito de aviões nas proximidades. Em princípio, se algum avião se chocar ali, a barreira não pode ser destruída. O mesmo ocorre no caso de um terremoto.

Infocampus – Mesmo com uma possível desconfiança por parte da opinião pública, a energia proveniente de usinas nucleares deixará de ser utilizada?

L. A. I - Não, isso não ocorrerá. Pelo contrário. O que tende a acontecer, é uma evolução maior nas tecnologias utilizadas. O processo de geração de energia nuclear pode evoluir para a fusão nuclear – ao contrário do processo de fissão utilizado atualmente nos reatores. O processo de fusão poderia constituir uma fonte inesgotável de energia. Isso ainda não é possível, mas será o passo seguinte na tecnologia nuclear.

Repórter:

Vitor Tassinari Dornelles – vitor.dornelles@yahoo.com.br

Edição:

Lucas Durr Missau – lucas.durr@gmail.com

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