Site do Grupo de Pesquisa Literatura e Autoritarismo  |  Índice de Revistas  |  Normas para Publicação
Literatura e Autoritarismo
De Representações e Construções: o Espírito da Arte e o Corpo da Crítica
Capa | Editorial | Sumário | Apresentação        ISSN 1679-849X Revista nº 20 

APRESENTAÇÃO

Ao chegarmos ao número 20 da Revista eletrônica Literatura e Autoritarismo, sentimo-nos orgulhosos em conseguir manter a peridiocidade da publicação desde o ano de 2002. Muito desse resultado positivo deve-se à confiança de pesquisadores que enviaram seus textos para qualificar esse veículo que vem angariando espaço no campo dos estudos críticos evidenciando a relação da literatura com a sociedade e com os demais produtos culturais, enfatizando o aspecto crítico contra a opressão, o preconceito e o autoritarismo em suas mais variadas formas e manifestações.
Com o título que salienta o entrecruzamento presente nos diversos temas e assuntos aqui inseridos, De representações e construções: o espírito da arte e o corpo da crítica pretende deixar claro aos leitores a tentativa de aproximação entre as representações culturais no âmbito das produções literárias analisadas com as construções que oportunizam interpretações críticas. A noção do distanciamento da arte como sendo um espírito capaz de simplificar e atenuar os conflitos sociais encontra – na perspectiva crítica – o necessário corpo para sentir essas questões. Assim, as reflexões sobre a formação do leitor, das experimentações artísticas, do engajamento revolucionário, da sexualidade e da fome, culminando com as palavras de escritores na construção de suas próprias imagens, se integram para uma leitura ampla e consistente.
Considerando o aspecto da formação de leitores literários no âmbito da educação básica e tendo o livro didático como um dos, senão o principal em alguns casos, instrumentos pedagógicos, é que o texto de Filipe Moreira se insere. O artigo ANÁLISE DO DISCURSO PEDAGÓGICO LITERÁRIO: A MANIPULAÇÃO DOS MANUAIS DIDÁTICOS E IDEOLOGIAS evidencia elementos que colocam em perspectiva a utilização acrítica dos manuais e livros didáticos, enfatizando o discurso do prazer por si só do texto literário. Sem ter a preocupação em reforçar a crítica acerca das publicações didáticas, o artigo pretende “refletir sobre o caráter discursivo ideológico presente nos manuais para o ensino de literatura, cuja apreciação deve se constituir, segundo nossa defesa, como arte que proporciona primeiramente prazer a quem a desfruta”.
Trazendo a preocupação da formação do sujeito-leitor, João Luis Pereira Ourique e Priscila Monteiro Chaves enfatizam a necessidade de uma reflexão sobre as contradições e paradoxos do homem e da cultura. Reconhecerem que a leitura - em especial a literária - pode ser entendida e percebida como um fator importante para a percepção de uma consciência histórica e enfatizam que a “significação do ensino de literatura parece ser muito mais relevante se este for capaz de oportunizar espaço para que as pessoas reflitam sobre a sua formação: tendo em mente a individualidade e o contexto social em que vivem”. Dessa forma, o artigo A DIALÉTICA DO CÂNONE LITERÁRIO SOB A ÓTICA DO CONCEITO DE EXCLUSÃO: CONTRAPONTOS FILOSÓFICOS E ENSINO DE LITERATURA colabora para esse processo reflexivo ao criticar que o trabalho com textos literários nos espaços formais de ensino acaba – com relativa frequência - por relegar a um segundo plano os aspectos ligados à formação cultural.
Mirele Carolina Werneque Jacomel, no terceiro texto desta edição, discute as EXPERIMENTAÇÕES VERBAIS E SOCIOPOÉTICAS EM “O TAL DO TAO” . A reorganização das ideias acerca do contexto social com base na linguagem poética sustenta a perspectiva da arte que, em primeira instância, “transforma-se num produto das práticas sociais e adquire forças para exercer poder sobre o homem. Desse pensamento, emerge a ideia de que por meio da arte o sujeito humaniza-se e compreende melhor as ferramentas para as disputas sociais, sem fazer uso da barbárie”. Para discutir essas relações entre arte e cultura e as questões formais das características do poema sonoro, Jacomel realiza um estudo no qual o poeta “Jader Scalzaretto surpreende com os estilhaços de palavras que compõem seus poemas. ‘O tal do tao’ consiste num poema sonoro bastante próximo da estética musical, devido às palavras ‘cantadas’, aos recursos de prolongamento sonoro e ao ritmo entoado pela voz”.
Cíntia Schwantes começa por descrever a extraordinária trajetória de Alina Paim para defender que seu romance - A hora próxima - se mantém fiel “à teoria da arte como reflexo objetivo da realidade elaborada por Lucáks”, seguindo os passos temáticos de outros autores engajados, como Jorge Amado. No artigo COMO ROMANCEAR A REVOLUÇÃO OU A HORA PRÓXIMA, DE ALINA PAIM revolução, transformação social, militância política, entre outras questões ideológicas caras à militância de esquerda, se fazem presente na narrativa, pois a “própria expressão ‘a hora próxima’, utilizada por um dos personagens, o velho Tião, um velho militante, é uma referência à revolução. O velho, um militante saído das hostes do proletariado, cuja escola foi a vida dura e a solidariedade dos companheiros, se recusa a utilizar o vocabulário da cartilha marxista, preferindo, ao invés, palavras que tem ressonância na vida de proletários como ele, palavras às quais eles atribuem significado”.
OS PECADOS DA MODERNIDADE EM PECADOS SAFADOS DE BETTI BROWN, da autoria de Evanir Pavloski, aborda o romance Pecados safados, publicado em 1995, que problematiza a questão da sexualidade na modernidade. A narrativa irônica de Betti Brown dá o devido destaque ao preconceito e à discriminação decorrentes de uma postura reacionária dominante na sociedade e que ainda se faz presente em vários momentos e setores. Sua obra apresenta um relato no qual “podem ser vislumbrados os semi-novos desafios do gênero feminino que, em um mundo globalizado e aparentemente liberal, ainda luta para conquistar sua voz, seu direito ao prazer e sua participação efetiva na sociedade”.
REPRESSÃO, RETÓRICA E PODER – AS MULHERES, OS CLÉRIGOS E A FOGUEIRA: UMA LEITURA SEMIOLÓGICA DA PROTAGONISTA BRANCA DIAS DE O SANTO INQUÉRITO, DE DIAS GOMES, dá título ao sexto artigo a compor este periódico. De autoria de Francisco de Souza Gonçalves, a preocupação em analisar os sinais (semas) que constituem a personagem Branca Dias, de O Santo Inquérito, de Dias Gomes, colabora com a contextualização da personagem a fim de serem discutidos elementos propícios para a análise comparada ao contrapor o tempo da narrativa com o período da publicação. A relação natural que Branca possui com o sagrado e o divino é o elemento fundamental para que a narrativa apresente claramente os sinais de sua constituição. “Sua imagem está longe de ser o de uma ‘santa’, uma mártir, como se poderia presumir. Como já foi sobejamente mostrado, a personagem dista muito deste estigma, na imagética que uma legitima ‘filha do sagrado’ teria para os inquisidores. Esta seria uma mulher desprovida de sua feminilidade, masculinizada, com ideais inalcançáveis e provida de uma espiritualidade descarnada que não passaria pelo humano para chegar ao divino, visão teológica moderna. (...) Branca é, simultaneamente, uma santa e uma mulher comum, sendo uma herege somente de acordo com a perspectiva doentia de fé, que os homens do Santo Ofício possuíam”.
José Aroldo da Silva, cujo objetivo do trabalho se evidencia diretamente no título - A REPRESENTAÇÃO DA FOME EM HOMENS E CARANGUEJOS DE JOSUÉ DE CASTRO -, se ampara em uma perspectiva dialética na qual o binômio interpretação/explicação procura relacionar os elementos presentes na ficção com a realidade social, enfatizando a temática da fome. Para embasar sua reflexão, do “romance Homens e Caranguejos, foram retirados excertos relacionados com os temas: fome, seca, migração rural, descaso do governo, nas esferas municipal, estadual e federal, quanto a uma política de convivência com os efeitos das estiagens e ausência de políticas públicas capazes de gerar trabalho e renda para a população que vive no sertão nordestino”. A obra de Josué de Castro, publicada em 1966, sustenta a reflexão de Silva quando se observa “que o autor buscou nas temáticas do êxodo, e da exploração do homem pelo homem, mostrar por meio da literatura de ficção uma realidade que assola milhões de pessoas no mundo, a fome”.
O CORPO E A SEXUALIDADE EM A DOCE CANÇÃO DE CAETANA E EVA LUNA: REPRESENTAÇÕES DA DOMINAÇÃO E/OU DA LIBERTAÇÃO, da autoria de Roseméri Aparecida Back, realiza uma análise das obras das escritoras Nélida Píñon e Isabel Allende a partir da representação do corpo e da sexualidade feminina. As convergências narrativas e intertextuais sustentam o estudo proposto, especialmente quando é enfatizada a forma como essa representação do corpo feminino ocorre nas protagonistas: “elas não representam o tempo todo corpos subalternos ou discriminados. Suas atitudes conseguem mudar sua condição de dominadas. Tanto Caetana quanto Eva são batalhadoras e corajosas, conhecem e interagem com outras pessoas, extraem de suas dificuldades força para superar os obstáculos e realizar seus sonhos”.
Encerrando esta edição da revista eletrônica Literatura e Autoritarismo, é apresentada uma série de entrevistas inéditas realizadas no segundo semestre de 2011, como parte das atividades acadêmicas no Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Letras, do câmpus de Três Lagoas, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Com o título geral de RETRATOS DE ARTISTAS QUANDO DAS LEITURAS E DAS ESCRITAS, esse trabalho, coordenado por Antonio Rodrigues Belon, contou com a participação de Bianca Estevam Veloso Ferreira, Édilis Michelli dos Santos Cunha Richard Quintas, Fabrina Martinez de Souza e Vanderlei de Souza na preparação e realização das entrevistas com os escritores Ana Paula Maia, Andréa Del Fuego, Daniel Galera e Marcelo Benvenutti.
Na expectativa de que esse número mantenha e amplie o diálogo acadêmico construído ao longo das várias edições – todas disponíveis para consulta -, agradecemos a submissão dos textos que ora integram esta edição.

João Luis Pereira Ourique
(Organizador)

Voltar ao início

© 2008 - All rights reserved - Web Developer by Odirlei Vianei Uavniczak